GDV

Grupo de Desenho de Viseu

-Museu Grão Vasco-

março 31, 2005



Naquela tarde de Setembro de 2003, corria uma brisa que agitava os cabelos e
os restos de pedra soltos do nosso primeiro modelo : aquele muro que se fez
ícone das nossas aulas, as aulas de desenho do professor Miguel. Do chão
pisado da rua estreita fizemos cadeiras de espaldar e das pernas e joelhos
improvisámos estiradores; resultado, um atelier apertado, impossível de
desfazer ou ruir.
Deslizar o lápis sobre a folha branca e sentir o embate fresco do preto
sobre o seu antónimo, passou a ser o propósito dos 110 minutos de Desenho às
segundas-feiras .
Com os olhos postos sobre uma trecho escolhido a dedo, enquadrávamos em
proporções menores uma paisagem, recortando bocados dela desnecessários : os
pés descalços de um sujeito desconhecido, a janela verde de uma casa
sombria, o lado esquerdo de uma fachada, o céu,...
A ideia primeira de satisfazermos o Miguel, o nosso professor,
transformou-se na vontade de nos satisfazermos a nós próprios. Nunca nos
impôs directivas nem nos ensinou um método taxativo para o desenho. Pelo
contrário, o Miguel incentivou-nos a procurar o nosso “risco”, a nossa
expressão pessoal. Passámos então a tentar inserir um bocado de nós no
desenho. Cada modelo que observávamos continha um potencial diferente,
dependendo dos olhos do observador. Para além do valor simbólico ou da
imagem interior dos modelos, existiam ainda as imagens exteriores aos
objectos, monstros abstractos de formas deformadas, encolhidas ou esticadas
: as sombras. Era a direcção da luz quem ditava nesta área, decidia quem era
o iluminado do dia, a estrela. Entendia-se pela acção que os objectos tinham
uns sobre os outros, certificada através de pedaços ou reflexos de
escuridão. Nós também tinhamos que representar esses pretextos imateriais e
ainda por cima fugazes e inconstantes.
As nossas aulas de desenho que agora fazem mais ou menos um ano de
existência, viviam-se no interior e no exterior. Encontrámo-nos no interior
do Museu Almeida Moreira, cheio de luz artificial para duplicar sombras, e
na Biblioteca Municipal. Mas foi no exterior, na rua, que experienciámos os
episódios mais engraçados, o contacto com os outros. Ou eram os gatos da Sé
que se instalavam em pose autoritária de felinos em frente aos nossos
modelos ou eram os simpáticos visitantes do nosso atelier de entrada livre
que expunham as suas críticas e comentários aos trabalhos...esses e muitos
mais agitavam as nossas aulas. As corridas entusiásticas atrás da nossa
mascote, a Inês, que não só fabricava cartoons com extraordinária rapidez e
facilidade como atacava a nossa concentração e proporcionava o riso...tudo
foram momentos especiais daquelas segundas-feiras.
As duas horas de desenho, rápido se transformaram numa sobremesa refinada,
num género de puff aconchegante e fundo,...num serão inseparável da rotina
semanal! Era só encher, em cada dia, uma página branca de cor e depois...que
delícia!...desfolhar um bloco inteiro de registos e anotações, para a frente
e para trás, um caderno branco vulgar tornado num objecto inteiro e pessoal!
Tudo...graças às aulas de desenho, ao Miguel, ao grupo...!!!


Joana Pestana

6 Comments:

Blogger Sérgio A. Correia said...

Gostava de convidar todos os comentadores deste excelente blogue, bem como o seu autor, a darem uma espreitadela ao meu modestíssimo blogue:

http://oimprevisto.blogspot.com

3:27 da manhã  
Blogger jp said...

Quem é a joana pestana? :-)

12:25 da manhã  
Blogger gaivina said...

A rapariga que aparece na foto em primeiro plano....escreve muito bem

3:14 da tarde  
Blogger jp said...

Muito prazer então e obrigado Gaivina.
Desculpa a curiosidade, mas ela chama-se como eu :o)
Beijinho

8:35 da tarde  
Blogger claire said...

dois chuács para ti gaivina

6:28 da tarde  
Blogger Gaivina said...

Ainda não perdi a esperança de voltar a relançar este grupo em Viseu....

1:22 da manhã  

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